O Corpo Sem Terra (e a compulsão por estímulos)
O Corpo Sem Terra (e a compulsão por estímulos)
Grounding, a psicodinâmica do uso compulsivo e o resgate da presença na era digital
Vivemos em uma era de flutuação permanente. Passamos horas com os olhos fixos em telas, processando um volume de estímulo que ultrapassa nossa capacidade biológica de integração. A tecnologia amplia fronteiras de trabalho, vínculo e criação — e, quando o uso se torna compulsivo, produz algo que a psicoterapia corporal sabe nomear: alienação de si.
A pergunta que orienta este texto é somática: o que acontece com o corpo enquanto a atenção permanece, quase o tempo todo, fora dele?
Uma nota sobre os níveis de discurso. Este artigo trabalha em três registros e procura mantê-los distinguíveis. Há dados de pesquisa, que apresento com suas limitações. Há teoria — Reich, Lowen, Pierrakos, Pathwork —, que apresento como leitura de escola, não como fato demonstrado. E há observação clínica minha, que sinalizo como tal. Distinguir os três não enfraquece a Core Energetics; ao contrário, é o que permite sustentá-la diante de um interlocutor cético.
E uma nota sobre nosologia. “Vício digital” não é categoria diagnóstica. A CID-11 reconhece o transtorno de jogo (6C51) entre os transtornos por comportamentos aditivos, não uma dependência de tecnologia em sentido amplo. Uso aqui uso compulsivo e busca compulsiva de estímulo em sentido psicodinâmico e fenomenológico.
1. O segmento ocular: a energia que sobe e não desce
Reich mapeou a couraça muscular em sete segmentos de bloqueio: ocular, oral, cervical, torácico, diafragmático, abdominal e pélvico. Interessam aqui os dois primeiros da cadeia, porque é neles que o uso de telas concentra toda a experiência: olhos hiperestimulados e cabeça em processamento contínuo, enquanto o restante do corpo permanece imóvel e descarregado.
Observe alguém absorvido no celular por alguns minutos. Os olhos ficam fixos, a cabeça se inclina à frente, a respiração se torna rasa a ponto de quase desaparecer, os movimentos cessam. O corpo está fisicamente ali e ausente da experiência.
O que a pesquisa mostra sobre o olhar. Há um dado fisiológico que costuma ser contado ao contrário. Diante de uma tela nós piscamos menos, não mais. O estudo clássico de Tsubota e Nakamori (1993) registrou cerca de 22 piscadas por minuto em repouso, 10 durante leitura de livro e 7 diante de terminal de vídeo. Há também aumento de piscadas incompletas, que compromete a distribuição do filme lacrimal.
A precisão importa: pesquisa posterior (Chu, Rosenfield e Portello, 2014) comparou leitura em monitor e em papel sob condições equivalentes e não encontrou redução atribuível à tela, propondo que o fator determinante é a demanda cognitiva da tarefa. Ou seja: não é o dispositivo que congela o olho, é a atenção sustentada sem descarga.
Isso não invalida o argumento — desloca-o para o lugar certo. O que distingue o ambiente digital não é a fixação em si (um livro também a produz), mas a combinação: disponibilidade permanente, notificação, personalização, rolagem sem fim, alternância rápida entre estímulos heterogêneos e ausência de qualquer ponto natural de parada. O livro acaba. O feed, não.
Observação clínica. Junto a isso, vejo com frequência um padrão de olhar que se move rápido entre pontos sem pousar em nenhum — um olhar que atualiza em vez de contatar. Em vez de presença, sucessão; em vez de permanência, alternância.
Leitura da Core Energetics. Na perspectiva das psicoterapias corporais, é possível compreender essa experiência como uma forma contemporânea de defesa fragmentada ou esquizoide: diante de ameaça ou sobrecarga, o sistema retira energia da periferia do corpo — justamente onde o contato com o mundo se faz — e a recolhe ao centro ou ao plano mental e abstrato, onde há sensação de segurança. Loustaunau descreve esse movimento como retirada de energia da periferia, com dificuldade correspondente de manter contato.
Trata-se de uma hipótese clínica, não de conclusão experimental. Mas é uma hipótese que descreve bem o que se vê no consultório: o ambiente digital oferece um meio extraordinariamente eficiente para estar fisicamente em um lugar e psiquicamente em outro durante horas.
2. Quando o estímulo vira substituto
Por que algumas pessoas simplesmente fecham o aparelho e outras sentem uma necessidade quase automática de verificar?
Na perspectiva do Pathwork, a resposta está na autoalienação — o afastamento do Eu Real — e na busca de substitutos. A Palestra 177, Pleasure — The Full Pulsation of Life (7 de novembro de 1969), formula a tese central de modo direto: o prazer é, ao mesmo tempo, o objetivo espiritual e humano último. Não um acessório da vida boa: seu critério. E enquanto acreditarmos que o substituto é todo o prazer disponível, não conseguimos acreditar que o prazer pleno seja real — de modo que o círculo se fecha sobre si mesmo.
Fisicamente, na leitura reichiana, a couraça opera como um grande “Não” à vida: contrai a musculatura, reduz o fluxo e produz anestesia. Quem não registra o prazer de estar vivo — que exige um corpo livre e respirante — não deixa de querê-lo. Em vez do caminho longo, que é flexibilizar a defesa e sustentar a vulnerabilidade, busca-se o substituto de acesso rápido: o estímulo da notificação, o triunfo do controle mental, o consumo.
Talvez eu não esteja procurando informação. Talvez esteja procurando alívio. Talvez não seja entretenimento: seja evitar o silêncio. Talvez não seja contato: seja não sentir a solidão.
A dimensão comportamental. Há também o desenho do ambiente. A literatura contemporânea discute a participação de mecanismos de reforço variável ou intermitente no engajamento de plataformas — recompensa social imprevisível em intervalos irregulares. A comparação com a máquina caça-níqueis é metáfora útil e não equivalência literal: nem toda plataforma opera assim, nem todo uso é aditivo. Mas ajuda a entender por que “tenha disciplina e desligue o celular” costuma ser conselho inútil. Existe um ambiente construído para reter atenção — e existe, do lado de cá, uma pergunta subjetiva: o que torna essa atenção tão necessária para mim?
O ciclo:
- Surge uma sensação interna desconfortável — vazio, tédio, ansiedade, solidão, raiva.
- A pessoa se afasta do corpo, e da sensação, via atividade digital.
- O estímulo produz alívio, excitação ou sensação de conexão.
- A experiência interna deixa de ser percebida e elaborada.
- Encerrado o estímulo, a sensação original retorna — e o corpo está mais rígido e menos presente do que antes.
- O ciclo se repete, produzindo autossupressão e desvalorização.
A contribuição de Pierrakos entra exatamente aqui. Reich mostrou que a energia estagnada gera rigidez e traço de caráter. John Pierrakos — que desenvolveu a Bioenergética junto a Alexander Lowen antes de fundar a Core Energetics, incorporando o Pathwork transmitido por Eva Broch Pierrakos — acrescentou que as crenças negativas, ou imagens, sustentam a estagnação energética e mantêm o bloqueio corporal. Não basta mover o corpo: é preciso esclarecer a intenção negativa e as convicções falsas que sustentam a defesa.
O caráter é estrutura paradoxal. Nasce como esforço inteligente de preservação da vida na infância e se perpetua como um “Não” que sabota a vitalidade adulta. Sem esse segundo movimento, qualquer exercício de grounding vira ginástica.
A pergunta terapêutica, portanto, não é quanto tempo você passa no celular. É: o que você não precisa sentir enquanto está nele?
3. Antes da prática: seis perguntas de auto-observação
Compreender o mecanismo não produz mudança. O que produz é perceber o mecanismo operando em si, em tempo real. Antes de qualquer exercício, proponho observar — sem corrigir nada ainda:
- Pego o aparelho quando começo a sentir algo que não quero sentir?
- Consigo permanecer alguns minutos sem estímulo nenhum?
- Percebo meus pés, minhas pernas e minha respiração enquanto estou diante da tela?
- Uso a tela para descansar ou para não entrar em contato comigo?
- Depois de uma hora conectado, sinto-me mais presente ou mais fragmentado?
- Consigo interromper voluntariamente uma atividade digital prazerosa?
Um experimento para hoje. Na próxima vez que sua mão for automaticamente buscar o aparelho, faça uma pausa de dez segundos. Não se proíba de pegá-lo — a proibição só desloca a defesa. Apenas pergunte: o que eu estava sentindo um segundo antes? E depois: o que espero receber daqui? Informação, prazer, companhia, distração, anestesia.
Essa pausa já é grounding. O enraizamento não começa quando os pés tocam a terra; começa quando voltamos a perceber o que está acontecendo dentro de nós.
4. Quatro práticas de reconexão
As práticas abaixo não substituem psicoterapia e não são tratamento para uso problemático de tecnologia. O objetivo é modesto e concreto: criar intervalos em que o corpo volta a participar da experiência.
As práticas I, III e IV são de autorregulação e podem ser feitas sozinho. A II é técnica expressiva e pede outro cuidado — a Core Energetics distingue expressão consciente de acting out, e a diferença está em presença, contenção e enquadre.
I. Grounding vertical
Fundamento. Lowen entende o grounding como o contato do sujeito com as realidades básicas de sua existência. Weigand, na atualização brasileira do conceito, articula-o ao desenvolvimento energético, emocional e relacional — grounding não como técnica postural, mas como capacidade de contato consigo e com o mundo. Enquanto Reich trabalhava predominantemente com o paciente deitado, Lowen e Pierrakos introduziram a posição vertical, que amplia mobilidade, oferece sustentação ao ego e prepara para a realidade material da vida.
Como fazer. De pé, pés na largura dos ombros. Joelhos levemente flexionados, nunca travados. Peso sutilmente nos calcanhares. Deixe a respiração acontecer sem forçá-la, permitindo que o abdômen se expanda na inspiração. Não tente produzir sensação alguma — observe a que houver. Um ou dois minutos. Caminhar descalço na terra ou na grama acrescenta estímulo proprioceptivo.
Pergunta-guia: consigo sentir meus pés agora?
II. Mobilização do “Não”
Fundamento. A rigidez de nuca, ombros e dorso frequentemente guarda uma raiva contida ou um “Não” que não pôde ser dito na infância. Enquanto congelada, essa energia impede tanto a entrega ao prazer quanto o fluxo do Eu Superior.
Versão mínima, para fazer sozinho. De pé, sinta os pés e a musculatura das pernas. Pressione as mãos com firmeza contra uma parede, mantendo a respiração presente e os joelhos destravados. Reconheça internamente: “Não.” Não é preciso gritar nem bater. Observe: onde surge tensão? Onde aparece força? Onde há medo, ou vontade de recuar? O objetivo aqui não é descarregar a emoção, é entrar em contato consciente com ela.
Versão expressiva, com acompanhamento. Descarga da cintura escapular sobre superfície firme, ou chutes ritmados e sustentados com a perna inteira, deitado sobre superfície acolchoada, acompanhados de vocalização — “Não!”, “Eu não quero ceder”. Dar voz consciente à negatividade descongela a energia retida, desde que haja integração depois (prática IV). Em pessoas com história de trauma ou instabilidade emocional, isso se faz em setting terapêutico, não em casa.
III. Grounding ocular e presença direta
Fundamento. Aliviar a estagnação do segmento ocular e devolver ao olhar a capacidade de pousar.
Como fazer. Sentado e ereto, sem mover a cabeça, faça movimentos oculares lentos e circulares até os extremos do campo visual. Em seguida escolha um objeto real à sua frente — uma planta, a textura de uma parede — e deixe os olhos repousarem nele. Observe forma, distância, cor. Enquanto olha, perceba simultaneamente os pés, o apoio da cadeira e a respiração.
O objetivo não é controlar o olhar. É reunir olhar e corpo no mesmo campo de experiência.
IV. Integração: a inclinação à frente
Fundamento. Exercício clássico da Bioenergética de Lowen, retomado por Weigand como recurso de integração após mobilização ativa.
Como fazer. De pé, joelhos levemente flexionados, incline o tronco lentamente à frente, deixando braços e cabeça soltos, sem forçar amplitude. Respire naturalmente por algumas respirações. Suba devagar, vértebra por vértebra.
Mais importante do que “sentir a energia descer” é a observação ao final: como estou quando volto à vertical? Há mais apoio? Mais percepção das pernas? Ou mais tensão? Não existe uma sensação correta a alcançar.
5. O corpo sem terra
O corpo contemporâneo pode estar sentado numa cadeira, dentro de uma casa, numa cidade, e ainda assim experimentar desenraizamento. Não porque a tecnologia o tenha produzido — o desenraizamento é anterior a ela e a couraça é bem mais velha que o smartphone —, mas porque ela oferece o meio mais eficiente já construído para permanecer longe da experiência imediata.
Por isso a questão não é abandonar as telas. É perceber quando elas deixaram de ser ferramenta que usamos e passaram a ser recurso ao qual recorremos para regular o estado interno. Posso trabalhar diante de um monitor e continuar sentindo os pés. Posso usar uma rede social sem converter cada desconforto em estímulo. A presença não exige ausência de tecnologia; exige que o corpo continue participando.
O trabalho de grounding propõe o movimento contrário ao do atalho: voltar ao peso, à respiração, à tensão, ao limite, ao desconforto, ao silêncio — àquilo que existe antes da próxima notificação. Na leitura da Core Energetics, esse retorno não é técnica corporal isolada, mas parte do reconhecimento das defesas e das crenças que sustentam a autoalienação.
O desafio da nossa época talvez não seja aprender a desligar a tela. Talvez seja recuperar a capacidade de não precisar fugir de nós mesmos quando ela se apaga.
Referências
CHU, C. A.; ROSENFIELD, M.; PORTELLO, J. K. Blink patterns: reading from a computer screen versus hard copy. Optometry and Vision Science, v. 91, n. 3, p. 297–302, 2014.
LOUSTAUNAU, L. The Four Phases of the Core Energetics Approach: An Evolutionary Therapy. Institute of Core Energetics. [Confirmar dados de publicação original.]
LOWEN, A. Bioenergética. São Paulo: Summus.
PIERRAKOS, E. B. Pathwork Guide Lecture No. 177: Pleasure — The Full Pulsation of Life. 7 nov. 1969, edição de 1996. Pathwork Foundation.
PIERRAKOS, J. Core Energetics: desenvolvendo a capacidade de amar e curar. São Paulo: Pensamento.
REICH, W. Análise do caráter. São Paulo: Martins Fontes.
TSUBOTA, K.; NAKAMORI, K. Dry eyes and video display terminals. New England Journal of Medicine, v. 328, n. 8, p. 584, 1993.
WEIGAND, O. Q. B. Grounding na análise bioenergética: uma proposta de atualização. 2005. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica) — Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2005.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. CID-11: transtorno de jogo (6C51).







