A dança da raiva: a raiva e seus relacionamentos
A dança da raiva: a raiva e seus relacionamentos
Norm, que havia perdido a esposa alguns anos antes, contou ao grupo que agora, morando sozinho, não sabia o que fazer com a própria raiva. Ele a sentia na barriga, mas não tinha mais ninguém para quem direcioná-la, com quem discutir, a quem atacar ou criticar. Jamais teria imaginado que a raiva seria uma das coisas de que mais sentiria falta.
Quando a raiva não é intensa demais, como no caso de Norm e de sua esposa Nancy, ela cria uma espécie de dança que o casal executa junto. É vista como uma forma de desabafar, aliviar a tensão e até resolver problemas. No entanto, pesquisas mostram que os casais que se depreciam, que atacam abaixo da linha da cintura ou demonstram desprezo e desrespeito, assim como aqueles que nunca expressam raiva e vivem cercados por muros de ressentimento silencioso, são os que apresentam as maiores taxas de divórcio.
A raiva é conhecida como uma emoção secundária, porque costuma surgir junto com outros sentimentos, como medo, luto, vergonha e tristeza. Ela abrange toda uma família de sentimentos negativos, da irritação à fúria, alimentados por neurotransmissores e hormônios como adrenalina, noradrenalina e cortisol, que provocam ativação fisiológica. Enquanto algumas pessoas não têm consciência da própria raiva, outras explodem, deixando escapar labaredas pela boca. Há ainda quem expresse a raiva por meio de movimentos físicos agitados e impulsivos.
Pessoas raivosas têm pouca noção do efeito que sua negatividade causa nos outros. E é ainda pior para quem reprime a raiva. Embora digam que está tudo bem e que não se ofenderam com o que aconteceu, quem observa suas expressões faciais e ouve seu tom de voz as percebe como insinceras. Elas não apenas traem a si mesmas, como também soam inautênticas. Mas não precisa ser assim. A seguir, três maneiras de usar a raiva para construir pontes, em vez de derrubá-las.
Primeiro, precisamos enxergar de outra forma as possibilidades que a raiva oferece. Enquanto ela for vista como um meio de descartar ou diminuir o outro, apontando falhas e defeitos, os relacionamentos vão desmoronar ou se transformar em acampamentos hostis. Mas duas ou mais pessoas podem se unir para criar algo melhor do que conseguiriam separadamente, e podem usar a raiva, quando expressa de forma consciente, como um tijolo nessa construção. Quando cada um aprende a ouvir opiniões contrárias com respeito, respondendo com empatia e compreensão, constroem-se pontes em vez de destruí-las. Frases simples como “eu entendo por que você pensa assim” ou “você tem um bom argumento” abrem caminho para conexões respeitosas e para a intimidade. A raiva não precisa vir carregada de culpa ou de antagonismo. Ela pode ser usada para celebrar as diferenças entre as pessoas, à medida que passam da irritação e do incômodo para o acordo e a aceitação.
Segundo, a raiva nos dá a oportunidade de reconhecer nossas próprias imperfeições ao vê-las em nossos parceiros. Observar o que o outro faz que desperta nossa raiva é como frequentar uma aula de desenvolvimento pessoal. Aquilo que mais te incomoda no outro provavelmente é algo que te irrita em você mesmo. Você não enxerga isso em si por causa de um ponto cego pessoal, mas no seu parceiro aquilo salta aos olhos. Use sua raiva para descobrir o que você precisa transformar em si. Se o seu parceiro provoca em você uma reação emocional forte, você está sendo convocado a identificar e curar suas próprias imperfeições.
Por fim, a raiva é uma ferramenta usada nos relacionamentos por pessoas que sofrem de um mal chamado “medo de amar”. Esses casais usam a culpa e o julgamento como uma cunha ou barreira para se manterem separados um do outro. Se o amor representa uma relação Eu-Tu, intimidade e um estado de unidade, o medo de se perder e se fundir no outro pode ser grande demais para algumas pessoas suportarem. A raiva é o antídoto perfeito, porque, embora seja disruptiva e venenosa para os relacionamentos, ela permite a separação. Pessoas que temem o amor usam a raiva e a culpa, sonhos irreais de almas gêmeas e parceiros perfeitos, e a expectativa de que o outro mude, para permanecer num estado sem amor, porém seguro.
Para que os relacionamentos floresçam, precisamos transcender nossa negatividade, nosso medo de amar e nosso medo da imperfeição, e enxergar a beleza em nossos parceiros. Precisamos abrir o coração, amar e valorizar a pessoa que está ao nosso lado, aceitando-a por inteiro, com seus lados desafiadores e seus lados maravilhosos.
Texto original de Karyne Wilner, PsyD, psicóloga e terapeuta Core Energetics, publicado pelo Institute of Core Energetics (EUA) sob o título “The Dance of Anger: Anger and Your Relationships”. Tradução e adaptação: Rede Brasil Core Energetics.
Leia o original em: https://www.coreenergetics.org/2026/06/07/the-dance-of-anger-anger-and-your-relationships/

